Um dia meu corpo e minha alma resolveram dar um tempo um do outro, meio que nem aquela propaganda da fiat... Não me lembro muito bem quando isso aconteceu e acho que fiquei anos sem perceber o que estava acontecendo. Muitos podiam dizer que eu era uma pessoa presente e com uma certeza só minha, mas na verdade essa certeza era um pouco de falta de senso de direção somada a falta de presença, essa equação resultava numa vida meio certinha, controlada e de passos marcados: Uma prisão com vista para o jardim.
A vista para o jardim me dava a sensação de que a vida era completa, com pequenos prazeres, mas na verdade os prazeres eram apenas vistos e quase nada sentidos. Assim foram as manhãs, dias, noites, semanas meses e acho que na verdade foram anos...
O jardim florescia, mas as flores não eram minhas, os passarinhos cantavam, mas a música não era para mim, embora às vezes achasse que fosse. Esse achar acho que encheu de uma miopia que me enganava e não me deixava ver mais a frente, nem ao lado e muitas vezes nem dentro de mim mesma.
Mas a vida sempre tem suas saídas, minha missão aqui é viver essa vida e não outra mais além ou acolá. Acho que um dia a minha alma cansou de vagar por aí e resolveu voltar para o seu corpo. Confesso que essa volta não é fácil, alguns dias ainda me causa estranheza, mas estamos indo bem.
Esse final de semana resolvi levar a minha alma pra fora de casa, fomos naquele jardim que sempre admirava, deixei o corpo colocar os pés na grama, me deixei sentir o calor do sol, a música, mesmo que baixinha, dos pássaros e a cor das flores.
Também não sei bem quando ela voltou, só sei que ela está por aqui, acho que nos cruzamos numa dessas esquinas da vida e resolvemos fazer as pazes, não sei se alguém deu um empurrãozinho, só sei que estamos juntas de novo: minha alma e eu!
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